O desemprego na representação do masculino

Em abril de 2017, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que a taxa de desemprego no primeiro trimestre do ano foi de 13,7%. Segundo o Instituto, isso significa que em três anos o número de pessoas fora do mercado de trabalho dobrou. Esse indicador é representativo da forte crise econômica que o país enfrenta e que tem preocupado a população, uma vez que o não exercício de uma atividade remunerada se traduz em dificuldades e exclusão social. Com a participação cada vez mais intensa da mulher no mercado de trabalho essa é uma ameaça que assombra tanto homens quanto mulheres. Contudo, as implicações desse quadro dentro de cada grupo podem assumir diferentes concepções.

No que diz respeito às mulheres, uma rápida leitura da história feminina mostra que, ao contrário do que pode dizer o senso comum, elas sempre desenvolveram atividades laborais para o sustento próprio ou da família. Isso fica ainda mais evidente quando se dirige o foco para as dificuldades enfrentadas pela população feminina pobre, principalmente no contexto das sociedades industriais, nas quais a participação feminina na linha de produção foi essencial para o desenvolvimento da área. A partir do século XX, especialmente na segunda metade do período, o trabalho feminino passou também a evocar a emancipação da mulher, já que a representação da “mulher trabalhadeira” passou cada vez mais a dividir espaço com a imagem da “mulher trabalhadora”, profissional formal da sua área. Mesmo que o trabalho ocupe a cada dia mais um lugar de destaque no cotidiano feminino, ele ainda não ocupa posição central na construção das representações desse grupo no tecido social brasileiro.

Ao se tratar do grupo social composto pelos homens, a atividade remunerada é questão sine qua non da construção da identidade do homem. Em sociedades pré-industriais a representação da masculinidade era permeada pela exibição da força, de coragem, do desprendimento emocional e do exercício da razão. O patriarcado construiu essa imagem masculina sempre em oposição à feminina, representada como fraca, dependente e emocional. Com o advento da industrialização, aos atributos de masculinidade somou-se a imagem do provedor e do protetor do lar. O pleno exercício da identidade masculina exigia, e ainda exige, do homem, a capacidade de sustentar a sua família e o emprego passou a ser o sustentáculo da imagem masculina na sociedade. O cenário contrário, o desemprego, representa um dos maiores estigmas social masculino na contemporaneidade, sendo um dos vetores de castração enfrentados por esses indivíduos que estão inseridos em uma sociedade ainda balizada em valores e comportamentos patriarcais.

As considerações supracitadas não pretendem afirmar que a problemática do desemprego masculino supera as questões que envolvem a desocupação feminina. Destaca-se, por exemplo, que no Brasil há um grande número de domicílios que são chefiados exclusivamente por mulheres, os quais enfrentam as mesmas dificuldades das unidades domésticas chefiadas por homens em caso de desemprego. A questão aqui discutida envolve a relação entre o emprego e a identidade masculina, assim como a do desemprego e a negação da masculinidade por ele promovida.

Parte-se do princípio de que as identidades de gênero, sejam masculinas ou femininas, são construções sociais, parâmetros de comportamento organizados por uma sociedade que os impõe a seus integrantes. Urge então destacar as formas que o desemprego pode afetar a performance do homem e da sua identidade, ao passo que o mesmo não se verifica no mundo feminino.

Mesmo que nas últimas décadas o movimento feminista tenha contribuído fortemente para a rápida mudança nas representações sociais do feminino, o mesmo não se verifica quando se dirige o foco para a masculinidade. Desta forma, verifica-se que a influência da construção patriarcal da masculinidade ainda tem forte ressonância na construção da representação do papel social masculino. Não obstante, o não desempenho de uma atividade remunerada continua a ser um estigma que permeia o universo masculino, não apenas com as implicações econômicas que ele evoca, mas afetando diretamente a psique dos mesmos e somando-se aquilo que se pode chamar de ‘crise da masculinidade’. Isso acontece, pois o trabalho continua sendo a autorização do exercício da masculinidade na contemporaneidade, servindo até como concessão para desvios de comportamento normalmente considerados como inaceitáveis, como a violência e o adultério, por exemplo. Desde que o homem seja reconhecido como um trabalhador, isso significando também ser um bom marido e um bom pai, algumas incorreções são negligenciadas pela sociedade, pois o indivíduo se encontra em perfeito exercício do seu papel social. Exercer a função de provedor do lar por meio do trabalho também é sinônimo de poder, pois garante ao homem a dominação sobre a família que dele possa depender.

Diante do quadro supracitado, o desemprego masculino representa grande perigo para a hegemonia do homem numa sociedade repleta de permanências do patriarcado. Ele o desautoriza, retira-lhe poderes, em suma, castra-o de sua masculinidade deixando-o vulnerável à “dominação feminina”, principalmente quando entra em questão o desempenho de uma atividade remunerada por parte das mulheres. Uma vez que o imaginário masculino é construído em oposição às representações do feminino, a “inversão dos papéis sociais” simboliza um sintoma de crise masculina no dia a dia. Acrescenta-se que, uma vez que o masculino ainda é construído nas bases do desapego emocional e da violência, uma das respostas possíveis ao desemprego, por parte dos homens, pode vir na forma de exacerbação de um comportamento violento que busca recobrar seu direito à masculinidade.

Salienta-se que isso não significa dizer que o desemprego é a motivação singular para a situação de estigma social e conflito psicológico masculino. Isso sugeriria dizer que essa é uma problemática sem solução possível, visto que a reserva de mão de obra é uma das estruturas fundamentais da sociedade industrial. Interessa chamar a atenção para a forma como ainda se constroem e se representam os ideais de masculinidade em nossa sociedade, sendo preciso que se repense e que se deem novos significados ao que é “ser homem”, buscando novas formas de lidar com os dilemas por eles enfrentados.

 

Alex Silva Ferrari – doutorando do PPGHIS/UFES

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